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Quem manda no teu desejo?


Quando lemos textos ou ouvimos palestras sobre alimentação natural, o assunto acaba geralmente circulando em torno das questões relacionadas com a qualidade dos alimentos, as virtudes dos cereais integrais, a contaminação dos alimentos, os malefícios da carne e do açúcar branco, etc. etc. Tudo isso que está abundantemente desdobrado na numerosa literatura disponível.
Este texto pretende abordar uma outra questão que é pouco colocada e que é o que verdadeiramente norteia, na grande maioria das pessoas, o ato de comer e a opção pelos alimentos : o desejo.
Normalmente o que construía este tipo de desejo (o chamado "gosto") era a tradição, isto é, o que a nossa mãe nos dava. E ela, por sua vez, recebia de sua mãe o conhecimento culinário (muitas vezes determinado por fatores culturais dos países de origem de nossa família) e assim a coisa se perpetuava sem nenhum tipo de questionamento maior. O critério do que é saudável se misturava ao do que é gostoso.
Com o advento da comunicação de massa e da expansão da mídia com seus marketings e merchandisings, novos vetores passaram a influir decisivamente no processo da construção deste tipo de desejo. Antes, comíamos o que era gostoso, e este gostoso era referenciado no condicionamento desenvolvido pela tradição familiar. Agora, comemos o que é gostoso, e os parâmetros do que é gostoso são criados e amplamente manipulados pela propaganda à serviço da indústria dos "alimentos", que obviamente não tem o menor interesse na verdadeira saúde. A "junkie food" dos fast food e a indústria do diet por exemplo, são algumas das expressões deste quadro.
Nos anos 70, com a explosão das (contra) culturas alternativas, a questão da alimentação foi ampla e profundamente questionada e experimentada. Várias tendências e linhas de alimentação eclodiram, como a macrobiótica, o vegetarianismo, o higienismo, etc., estabelecendo parâmetros e critérios verdadeiramente corretos do que é efetivamente saudável ou não. Hoje qualquer um sabe (e os médicos e nutricionistas realmente comprometidos com a saúde corroboram) dos malefícios do açúcar, da carne, dos alimentos industrializados, dos agrotóxicos, enfim, estabeleceu-se solidamente uma filosofia e uma tecnologia do comer que realmente promove a saúde através o reequilíbrio da energia e conseqüentemente do sistema imunológico, como aliás preconiza toda a cultura oriental (que também teve seu boom no ocidente nos anos 70).
A manipulação do nosso desejo pela mídia a serviço do sistema vem perpetuar de forma mais moderna, aquela velha técnica de dominação tão utilizada pelas religiões e pelas ditaduras, de procurar controlar os dois maiores poderes acessados pelo homem comum: o dinheiro e o sexo. Não é, pois, a pornografia de hoje também uma forma de manipulação da mente das pessoas como foi no passado o puritanismo?
E é exatamente isto o que faz esta ideologia que hoje chamamos de "liberalismo" e que dá suporte a outro eufemismo terrível chamado "globalização". O que se pretende globalizar na verdade, é tão somente a dominação e a dependência (lembra do "concentrar o lucro e socializar o prejuízo" ?). Todos sabemos que o mundo caminha para uma mega concentração de poder nas duas áreas mais vitais do mundo moderno: a informação e a alimentação. E lucro e poder é efetivamente só o que interessa.
Todos sabemos também que a estratégia básica do capitalismo é manter inalterada a desigual pirâmide social. É de importância capital para a manutenção deste injusto sistema que na imensa base desta pirâmide sejam mantidos os indivíduos em um estado de pouca educação e pouca saúde, gerando mente não questionante e mão de obra barata. Claro, pessoas saudáveis, inteligentes e bem informadas não podem ser tão facilmente dominadas nem exploradas.
A estratégia das transnacionais (reparou que o que antes eram empresas internacionais, viraram multinacionais e agora são transnacionais que caminham em direção à efetivação do famigerado Big Brother?), que são hoje o esteio desta ideologia, foi extremamente eficiente: controlou-se completamente o processo da produção de alimentos e da "cura" das doenças. A maioria das empresas que fabricam agroquímicos agrícolas, são as mesmas que fabricam os remédios alopáticos. Por exemplo, a mesma empresa que maquina sinistramente com os transgênicos, envenena os incautos com o edulcorante "diet" aspartame.
Implantou-se então, de forma absolutamente eficiente, a cultura da doença, que efetivamente é o que dá lucro. E isso é tão grave que até no interior está-se perdendo o conhecimento da fitoterapia empírica e do curandeirismo nativo em função da televisão que invade os lares rurais e infecta as mentes simples com seu conteúdo na maioria das vezes inútil e destrutivo, homogeneizando as culturas e as tradições, e criando necessidades fúteis e a artificiais.
E aí vemos que bilhões e bilhões de dólares tem sido gastos com pesquisas mirabolantes, produção de equipamentos sofisticadíssimos e de remédios espetaculares. Tudo para tentar sanar as doenças causadas por uma vida desequilibrada e desarmônica, quando com um simples e barato trabalho preventivo - alimentação correta, vida afetiva e profissional saudável, produtiva e criativa, atividade física regular - essas doenças praticamente não existiriam.
Sabemos bem que prevenção é barato, e que, como já dissemos, pessoas que se alimentam bem, tem uma vida criativa e produtiva, que usam saudavelmente seu corpo e sua mente, quase não adoecem. Educação alimentar, Yoga, Tai chi chuan , Chi Kun, massagem, fitoterapia, acupuntura, homeopatia, tudo isso é barato e extremamente eficaz, e poderia ser amplamente disponibilizado para a população, não fosse a visão nenhuma (e na maioria das vezes o caráter nenhum) dos que decidem nossa vida.
A medicina alopática acabou prestando-se perfeitamente para a cristalização desta situação. É uma medicina sintomática, reducionista, imediatista, completamente descompromissada da visão holística e integrativa da vida e absolutamente ignorante do energético e do sutil. Com a vantagem - para as transnacionais - que esta forma de medicina, que é absolutamente dependente dos remédios quimicos, é a que dominou praticamente todo o planeta, entronizando dogmaticamente o conceito de que só é válido e verdadeiro o que é provado em laboratório. Bem diferente da visão energética e vitalista das filosofias e das terapias orientais, onde o sutil , o simbólico e o intuitivo são provados pela milenar experiência pessoal.
E a medicina alopática foi a única medicina desenvolvida na humanidade que não é vitalista, nem holística, nem integrativa.
Mas quando esta medicina percebe que alguma terapia oriental pode ser lucrativa, lança sua teia corporativa descaracterizando a terapia de seu aspecto dialético, filosófico e simbólico, como está ocorrendo, por exemplo, com a acupuntura. A medicina criou a "acupuntura médica", modalidade que reduziu esta milenar ciência a uma técnica sofisticada de analgesia (e de tratamento de mais algumas doenças cuja cura foi "comprovada cientificamente") e agora conspira para que só os médicos possam utilizá-la (embora tenham aprendido com os leigos).
Da mesma forma, aliás, está acontecendo com a Educação Física em relação ao Yoga, e se deixarmos, Yoga vai virar ginástica. Interesses de mercado e nada mais...
Ainda por cima, temos que aturar eufemismos surreais como "Planos de Saúde" e "profissionais de saúde", quando todos estes estão à serviço da doença fomentando e mantendo este status quo, que é extremamente lucrativo.
A teia das transnacionais dominou com sua ideologia, desde o ensino da medicina e da agronomia nas universidades, passando pela produção de alimentos, medicamentos e agroquímicos, até o desenvolvimento de uma propaganda que ajuda a manter competentemente em vigor um sistema que se nutre basicamente da deturpação do ... desejo.
A falta da informação verdadeira fez com que as pessoas depositassem cegamente sua saúde nas mãos do médico, que, se antigamente era um parceiro na manutenção da saúde, agora raramente influi na reeducação dos hábitos e da alimentação do paciente, o que criou um círculo vicioso onde nem médico nem paciente são exatamente culpados : aquele, já tem sua cabeça feita pela doutrina das transnacionais; este, não quer mesmo mudar seus hábitos (e seus desejos) esperando que o deus médico que estudou tanto vá curar milagrosamente seu corpo estragado pelas porcarias que o sistema o leva a comer e fazer. E ao sistema (e ao médico) não interessa mudar estes hábitos porque eles podem levar à saúde - que não é a mesma coisa que ausência de doença, um estado em que a maioria da população se encontra quando não está doente. E a saúde vai manter o paciente longe do médico.
Obviamente, como tudo na vida, a medicina alopática também tem seus méritos, grandes avanços, especialmente nas áreas do diagnóstico e da cirurgia. O que é necessário é que esta modalidade de medicina deixe de imperar como a "superior", deixe de ser dominada pelas transnacionais e passe a interagir de igual para igual com todas as outras medicinas, tão verdadeiras e válidas quanto.
Só como curiosidade: na China, o médico de aldeia era punido quando uma pessoa adoecia...
É fundamental o resgate da saudável relação de parceria entre terapeuta e paciente, onde trabalhar os hábitos de alimentação do paciente não é uma " invasão de privacidade", mas faz parte integrante do processo de cura. E é fundamental o resgate da responsabilidade que cada um deve ter por sua própria saúde e por sua própria vida. Todos devem aprimorar seus conhecimentos sobre saúde, sobre seu corpo, desenvolver consciência corporal, sensibilidade, intuição, e principalmente, real autonomia sobre sua vida. Neste processo o terapeuta é um bom coadjuvante.
Na filosofia hindu existe um termo que se chama "buddhi" e que é traduzido como intelecto. Buddhi é a parte da mente que se ocupa do discernimento e da discriminação, isto é, da escolha entre o que é bem e mal, bom e ruim, certo e errado, vontade e necessidade.
Segundo a visão oriental, buddhi é quem deveria nortear o desejo, e não a mente ou o ego. E trazendo esta questão para assunto aqui abordado, nosso comer, nosso "gosto", deveria ser construído pelo nosso discernimento.
É bom que fique claro que este texto não pretende, de forma nenhuma, fazer apologia contra o desejo. O desejo existe e é necessário. O prazer existe e absolutamente não é feio nem pecado, como querem muitas religiões interessadas em manter o domínio sobre seus fiéis
O problema está justamente na construção deste desejo, e é isto que este texto quer salientar e questionar. O desejo que norteia meu comer (e o prazer que resulta disto) deveria ser referenciado pelo meu discernimento consciente e refletido do que é realmente saudável, e não por uma tradição que nunca questionou o padrão de alimentação vigente ou, pior, por um sistema que quer você escravo e doente.
Este texto vem fazer, na verdade, a apologia da emergente necessidade do resgate da nossa liberdade de questionar conscientemente e optar maduramente pela alimentação (e pelas terapias) que nosso discernimento escolheu, fruto do exercício da verdadeira cidadania que é tomar em nossas próprias mãos as rédeas de nossa vida e da nossa autonomia de optar.
O grande empecilho para a retomada de nossa verdadeira liberdade de escolher (até por se envenenar) é a idéia que se cristalizou profundamente na sociedade, de que os hábitos são muito difíceis de se mudar, como se estes fossem estigmas "imexíveis". Sem falar que estas situações estão geralmente ancorando histórias emocionais mal resolvidas. E isso é um prato para o sistema, e também é disso que ele se nutre e se fortalece.
A visão ocidental, tão fragmentada e tão desconectada da natureza e do uno, produziu um homem moderno fragmentado e desconectado da natureza e do uno. E um ser que não procura conscientemente vivenciar e integrar corpo/mente/emoção/energia e sua íntima relação com toda a criação, é um ser mais facilmente manipulável.
Urge que deixemos de ser ridículos escravos do sistema e dos nossos desejos deturpados, e que a custa de muita investigação, estudo, meditação, experimentação (e algum esforço), mudemos consciente e voluntariamente nossos hábitos nocivos por hábitos saudáveis. E isso, é claro, se aplica a tudo na vida.
É preciso que se entenda que o gosto é algo absolutamente educável (assim como, por exemplo, o gosto musical) e transformável, e que a alimentação verdadeiramente saudável é gostosa, prazeirosa e energética. Os alimentos tem, cada um, seu próprio e peculiar sabor, e efeitos que se dão em níveis sutis, e o sistema fica freneticamente envenenando os alimentos, e nós ficamos freneticamente maquiando estes alimentos com mil e um artifícios, fomentando uma verdadeira deseducação em nossos sentidos.
E é importante que se saliente também que a alimentação natural, orgânica, além de ser saudável e vitalizante, é políticamente e ecologicamente correta, pois em sua visão holística, preocupa-se com a saúde do indivíduo, da sociedade e do meio ambiente.
Os produtores orgânicos não são pobres aplicadores de agroquímicos, vítimas do sistema escravizador. São seres que percebem a profunda interação entre a natureza e o homem, e são pessoas profundamente antenadas com o amor pela terra e por seus semelhantes.

 

Ernani Fornari
Dharmendra


 
 
 
 
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